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Pista Mágica — Voluntariado & Inovação

Saúde Mental Juvenil: Lições que trazemos da Finlândia

Jovens enfrentam desafios de saúde mental; voluntariado e espaços seguros fazem a diferença.

As pessoas jovens de hoje enfrentam desafios crescentes em saúde mental, mas o acesso a apoio continua limitado. Desde listas de espera intermináveis à insuficiência de serviços, que o tratamento, muitas intervenções dependem fortemente da utilização de medicação, sem incorporar abordagens comunitárias complementares, que poderiam auxiliar na concretização de melhores resultados. Ao mesmo tempo, o financiamento para projetos na área da saúde mental é reduzido, o que cria necessidades urgentes de mitigação, passíveis de serem cruzadas com soluções sustentáveis.

Existem, no entanto, oportunidades promissoras para colmatar estas lacunas. Modelos comunitários podem captar as pessoas jovens, ao oferecer espaços seguros e personalizados para as pessoas trabalharem determinados recursos: acesso a novos espaços de sociabilidade entre pares, reforço da sua autoestima e de autorrealização, da descoberta/potencialização de talentos, acesso a novas oportunidades, aquisição de novos papéis sociais e a sua plena inclusão na comunidade. Estes recursos são essenciais para prevenir e atenuar determinados problemas de saúde mental.

É aqui que surge o voluntariado, uma ferramenta que permite ligar as pessoas jovens às comunidades locais e gerar relações mutuamente benéficas. O voluntariado, quando integrado nos cuidados profissionais, em estreita colaboração com profissionais de saúde mental, pode tornar-se numa forma significativa de apoio.

Neste contexto, e mediante a vontade de três organizações que trabalham amplamente o voluntariado, surgiu o projeto “Mental Matters – Supporting young people with mental health issues”. Este é projeto financiado no âmbito do programa ERASMUS+, na área da Juventude. O projeto surge da colaboração entre a Gemeinsam leben und lernen in Europa e.V. (DE), que coordena a iniciativa, a Pista Mágica – Associação (PT) e a SOSPED (FI). O objetivo é promover a troca de boas práticas e metodologias entre organizações em termos de voluntariado, com foco no apoio a jovens com problemas de saúde mental.

Este projeto, que se iniciou em março de 2025 e cujo término está previsto para abril de 2026, permitiu às três organizações parceiras visitarem as organizações de cada uma e apreenderem as mais-valias das suas metodologias e do voluntariado para a área da Saúde Mental. A Pista Mágica – Associação, a primeira escola de voluntariado em Portugal, visitou a SOSPED em junho de 2025 e a Gemeinsam leben und lernen in Europa e.V. (DE) em novembro de 2025.

A experiência relatada neste artigo será da visita da Pista Mágica – Associação à fundação SOSPED, que implementa um modelo inspirador, assente na comunidade e no voluntariado enquanto uma ferramenta de empoderamento.

A fundação SOSPED, uma organização não governamental sediada na Finlândia, apoia pessoas que enfrentam situações de vida desafiadoras por meio de serviços baseados no apoio entre pares, experiência empírica e princípios sociopedagógicos. A SOSPED emprega, por todo o país, um modelo denominado “Cultural Houses”. Na visita de junho de 2025, a Pista Mágica - Associação conheceu duas “Cultural Houses”: a Kupla, em Helsínquia; e a Virta, em Tampere. 

Estas “Cultural Houses” são literalmente espaços que funcionam o ano todo e que recebem jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos, geralmente com problemas de saúde mental. Os jovens são sinalizados por entidades parceiras da SOSPED e passam por um processo de inscrição e integração que geralmente envolve a realização de entrevistas e o preenchimento de formulários. De facto, a SOSPED beneficia de uma ampla rede de parceiros e muitos jovens são encaminhados por profissionais da área de saúde mental. Contudo, os visitantes não precisam justificar seus diagnósticos; basta que participem porque estão com dificuldades.

 

Após este processo, os jovens têm total liberdade para participar nos grupos conforme as suas preferências, desde que respeitem o conceito de “Espaços Seguros”, o pilar central da abordagem das “Cultural Houses”. Os “Espaços Seguros” prezam a integridade física e mental de todos os participantes, ao garantir a exclusão de comportamentos de risco e/ou antissociais, evidentes em casos de discursos de ódio, violência e não aceitação. Não existe qualquer tolerância a este tipo de comportamentos no modelo das “Cultural Houses”. Por exemplo, se alguém pede para interromper um determinado assunto, isso deve ser respeitado, e, se quiser continuar, encontra outro momento ou espaço para isso. Os jovens têm de se comprometer com estas regras para usufruírem dos espaços.


Posto isto, estas casas oferecem uma panóplia de atividades em áreas como pintura, culinária, desporto, escrita, cultura, jogos, música, joalharia, entre outras. São as pessoas jovens que escolhem o tipo de atividades que são implementadas, naqueles espaços, a cada 5/6 semanas. Os jovens que frequentam estes espaços têm liberdade para escolher os dias a que comparecem e para disfrutar da plenitude do espaço (e.g. cozinha, salas de estar, etc.) nos seus próprios termos. Aprendemos que, em alguns casos, existem jovens que não participam diretamente nas atividades que estão a decorrer, recolhendo-se nas suas próprias tarefas pessoais (e.g. estudar, procurar um emprego, ler, etc.), num espaço em que se sentem seguros.

As pessoas jovens que escolhem e dinamizam as atividades são os chamados “peer tutors”, ou seja, jovens que frequentam estas casas há um período de tempo considerável e que aceitam iniciar uma nova fase da vida deles, ao adquirirem o papel de voluntários. Para o efeito, têm de passar por uma formação que lhes permite refletir sobre as competências essenciais de um “peer tutor”. Este processo é assente na utilização de diversas dinâmicas de educação não formal, em que as experiências pessoais e as reflexões em grupo permitem aos jovens compreenderem as suas forças, os seus medos e como superá-los. Esta formação tem como intuito preparar e fortalecer os jovens para assumirem o papel de tutores dos seus pares.

Após passar pela formação, estes jovens têm a total liberdade para criar o seu grupo de atividades, escolher um horário e dinamizar o mesmo durante aquele período. Cada “peer tutor” tem o papel de guiar e dirigir o grupo ao longo da atividade, mas o que mais nos impressionou foi como esse papel é acessível, qualquer pessoa com interesse genuíno em um tema pode iniciar um grupo, mesmo sobre algo que ela quer aprender. O processo se torna uma exploração compartilhada; por exemplo, um participante tinha começado um grupo de memes por curiosidade, e o grupo aprendeu junto a produzi-los.



 Assim sendo, o aspeto mais tocante para nós foi ver como os jovens realmente se sentem em casa e incluídos. Todos pareciam seguros e, ao participarmos em alguns dos grupos, como foi o caso do grupo de joalheria, percebemos que existem diferentes formas de envolvimento. Alguns participam ativamente, enquanto outros se sentem confortáveis apenas em estar presentes. Cada pessoa é livre para escolher sua maneira de participar e essa escolha sempre é respeitada.


O ambiente físico também contribui muito para essa sensação de pertença. As paredes das “Cultural Houses” estavm repletas de obras de arte criadas pelos próprios jovens, e há muitos espaços aconchegantes para uma pessoa se sentar e relaxar. Tivemos ainda o privilégio de participar da comemoração do aniversário da “Cultural House” Virta, um evento que reuniu diferentes gerações de participantes. Em conversas com a equipa técnica, percebemos o longo caminho que percorreram e o impacto profundo que as “Cultural Houses” têm na vida dos jovens. Os mesmos jovens que, em tempos, não conseguiam fazer uma apresentação em público, estavam ali, a recitar poesia e a tocar música ao vivo, com tranquilidade.

As conversas com os próprios jovens foram igualmente marcantes. Muitos falaram com alívio e gratidão sobre ter um espaço seguro onde podem ser simplesmente eles mesmos. Um deles disse:

“A Cultural House é muito importante na minha vida. Aqui tenho um lugar seguro, onde posso expressar os meus sentimentos, ansiedades e problemas, e quase toda a gente entende o que eu sinto, fazer julgamentos.”


Outro compartilhou:

Este lugar deu-me energia para seguir em frente. Não há pressa, nem pressão para se ser o melhor; a minha mente fica descansada e sinto que tenho liberdade para avançar. Descobri que tenho algo a oferecer e que posso desenvolver minhas habilidades.”


Alguns refletiram sobre a sensação única de fazer algo apenas por prazer, sem pensar na utilidade futura:

Normalmente, tudo é julgado pelo que será útil no futuro. Aqui, é sobre o momento, e sobre fazer algo que tu gostes. Focar no AGORA, também estamos a cuidar do nosso futuro.”


Um resumo perfeito foi feito por outro jovem:

A pressão da sociedade é enorme, desde cedo, é quase um culto ao sucesso.”




A equipa técnica, por sua vez, atua principalmente nos bastidores, ao fornecer materiais, ouvir quando é necessário, apresentar novos visitantes, intervir se algo sai do controlo e ao cuidar da parte administrativa. Mas a energia e as ideias vêm dos próprios participantes, que são os verdadeiros motores das atividades. Esse equilíbrio gera senso de pertença e confiança; tudo parece possível e todos são incentivados a tomar iniciativa.

Contudo, também é fundamental reconhecer os limites do que as casas podem oferecer. Em situações mais complexas, pode ser necessário acionar outros profissionais e redes de apoio, como psicólogos ou terapeutas.

 No geral, o que mais nos tocou foi como esse espaço incentiva as pessoas a se expressarem, explorarem, descansarem e crescerem, sem julgamento ou pressão. É um lugar onde estar presente é tão valorizado quanto avançar, e onde cada um, à sua maneira, encontra luz e conexão.

Assim sendo, acreditamos que iniciativas como as “Cultural Houses” são essenciais para reduzir o impacto a longo prazo dos problemas de saúde mental. Ao reforçar e trabalhar determinadas competências dos jovens por via de metodologias participativas e do voluntariado, podemos desenvolver soluções de saúde mental que sejam mais inclusivas, eficazes e sustentáveis. Estas soluções devem basear-se nas experiências vividas dos mais jovens e deixar que os seus discursos e as suas realidades contribuam a consciencialização, a redução do estigma e para a compreensão das situações adversas que interferem na sua saúde mental.


Profissionais e organizações necessitam de oportunidades para aprender métodos inovadores e adotar boas práticas, tal como aconteceu no “Mental Matters”. Sentir, enquanto profissionais, as “Cultural Houses” por via dos seus participantes, deixou evidente o papel marcante que um espaço seguro, desprovido de pressões externas, pode ter na vida de muitos jovens. A simples existência das “Cultural Houses” não teria o mesmo impacto sem as abordagens e os valores que são reforçados nestes espaços. A noção de “Espaços Seguros” e a liberdade para explorar diferentes atividades e interesses, sem a pressão de exprimir a máxima habilidade, permite a muitos jovens encontrarem o seu caminho.

 

Escrito por: Paula Pereira (Pista Mágica – Associação).