Meninos de Oiro
“O que as crianças precisam antes de conhecer um padrasto ou uma madrasta”
Opinião DN de 21/09/2026
O que as crianças precisam antes de conhecer um padrasto ou
uma madrasta
Quando um casal se divorcia, a separação acontece entre os
adultos. Mas as suas ondas de impacto chegam inevitavelmente às crianças, que
são chamadas a reorganizar a sua vida emocional perante mudanças muitas vezes
profundas e inesperadas. Entre duas casas, horários diferentes, novas rotinas e
emoções intensas, há um trabalho interno que precisa de tempo para acontecer.
Uma das tarefas mais importantes para uma criança após o
divórcio é compreender e aceitar que a separação dos pais é permanente. Para os
adultos, esta realidade pode parecer evidente. Para muitas crianças, sobretudo
as mais novas, não é assim. É frequente que alimentem, durante meses ou mesmo
anos, a fantasia da reconciliação parental. Guardam a esperança de que os pais
voltem a viver juntos, imaginam estratégias para os aproximar ou interpretam
pequenos sinais como provas de uma possível reaproximação.
Por isso, quando um dos progenitores apresenta uma nova
companheira ou um novo companheiro, a criança pode sentir que essa esperança se
desfaz definitivamente. O aparecimento de uma madrasta ou de um padrasto não
representa apenas uma nova pessoa. Simboliza, muitas vezes, a confirmação de
que a família, tal como a criança a conhecia, não voltará a existir.
É por esta razão que a introdução de uma nova relação
amorosa na vida dos filhos não deve ser precipitada. Antes de conhecerem um
novo elemento da família, as crianças precisam de sentir que a sua vida
recuperou alguma previsibilidade e estabilidade. Precisam de se adaptar às
mudanças trazidas pelo divórcio, encontrar novas referências e construir um
sentimento de segurança no contexto familiar que agora existe.
Mesmo quando essa nova pessoa é afetuosa, respeitadora e
disponível, é natural que a sua chegada desperte emoções complexas. Algumas
crianças sentem tristeza, raiva ou medo. Outras experimentam conflitos de
lealdade, receando que gostar do novo companheiro da mãe signifique trair o
pai, ou vice-versa. Há ainda quem se sinta substituído ou menos importante.
Estas reações não são sinais de má adaptação, nem de falta
de maturidade. São respostas compreensíveis perante uma mudança que toca
dimensões profundamente sensíveis da identidade e dos vínculos afetivos.
Os pais podem ajudar escutando sem julgar, validando emoções
e evitando impor relações ou expectativas excessivas. O afeto não se decreta. A
confiança não se exige. Ambos se constroem, lentamente, através da experiência
e da convivência.
Num tempo em que tudo parece ter de acontecer rapidamente,
importa sublinhar uma ideia simples: as famílias recompõem-se ao ritmo dos
adultos, mas os filhos ajustam-se ao ritmo das suas necessidades emocionais. E
esse ritmo merece ser respeitado. Porque, depois de um divórcio, talvez não
exista gesto mais importante do que dar tempo ao coração para compreender
aquilo que a vida mudou.
Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal
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