O Pilar Social da Sustentabilidade nas Organizações

Autor: Fernando Paulo

O Pilar Social da Sustentabilidade nas Organizações

A sustentabilidade é, na atualidade, um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta. Porque são crescentes os problemas ambientais e a ameaça aos recursos naturais, causados pela ação humana, Governos, empresas, sociedade civil, cada um de nós, deve ser convocado para pensar e agir sobre as alterações climáticas. É crucial discutir a sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável para que todos, individual e coletivamente, se sintam implicados e participem na salvaguarda dos recursos, que são finitos e necessários no presente e para as gerações futuras. O conceito de sustentabilidade parte, precisamente, da premissa de que devemos atender às necessidades do mundo atual sem comprometer a capacidade de suprir as necessidades das gerações futuras.

O desenvolvimento sustentável possui três grandes eixos: económico, ambiental e social. Exprimindo a relação estre si, o crescimento económico deve primar pelo respeito e preservação ambiental, pela melhoria da qualidade de vida das populações e a redução das desigualdades sociais.

O pilar económico, referindo-se à criação de riqueza e relacionado diretamente com os stakeholders, foi quase sempre considerado como o alicerce do desenvolvimento, uma vez que através dos lucros (físicos, financeiros e intelectuais) são gerados empregos e melhoradas as condições sociais da comunidade. Este paradigma está, no entanto, a mudar, já que atualmente é aceite que o lucro, sendo importante, não é nem pode ser a única finalidade de uma organização. As organizações, mesmo as intituladas “com fins lucrativos”, têm cada vez mais como finalidade a criação de valor para a sociedade, assumindo que o lucro é apenas um dos pilares da sua sustentabilidade.

o lucro, sendo importante, não é nem pode ser a única finalidade de uma organização

No mundo globalizado em que vivemos, onde as mudanças são extremamente rápidas e exigentes, as organizações, para serem sustentáveis, têm de conseguir dar respostas diferenciadas e inovadoras aos seus diversos stakeholders (clientes, concorrentes locais e globais, agentes políticos, etc.). Estas respostas vão muito para além do lucro económico, passando pela criação de valor ao nível pessoal, familiar, da comunidade local e global. Assim, o pilar social representa as pessoas, incorporando questões relacionadas com a inclusão, saúde, segurança e bem-estar social. Através da criação de condições adequadas de trabalho, contributos para as comunidades locais, melhorando as condições de vida dos colaboradores e da sociedade em geral, este pilar engloba as questões relacionadas diretamente com o desenvolvimento humano. As lideranças e os agentes políticos são elementos cruciais para que o pilar social nas organizações possa fomentar uma partilha efetiva de recursos, um trabalho em rede, uma co-construção de respostas que gerem impacto na vida das pessoas.

O pilar social das organizações tem vindo a estar, cada vez mais, na agenda política, entendendo-se que este é essencial para que haja uma visão holística potenciadora de uma sociedade coesa e inclusiva, a qual permita uma distribuição mais equitativa dos recursos. Existem algumas medidas muito práticas que podem ser implementadas para que se possa consolidar o pilar social da sustentabilidade no meio empresarial: a possibilidade de trabalhar em rede com acesso a meios que facilitem a comunicação interna e externa; o acesso a formação contínua; a igualdade de oportunidades e progressão de carreira; medidas que facilitem a conjugação da vida profissional e familiar; a promoção de momentos e espaços de reflexão onde as pessoas são ouvidas e podem fazer propostas de melhoria; etc. Recorde-se a este propósito que quanto mais se fomenta a educação, a formação, o acesso à cultura, a especialização, o conhecimento, maiores são os indicadores de desenvolvimento social.

Também as políticas públicas podem promover o pilar social ao premiar e estimular as empresas que, paralelamente à sua atividade empresarial, contribuam para o bem-estar social, por exemplo intervindo com impacto positivo na comunidade onde estão inseridas.

Também as políticas públicas podem promover o pilar social ao premiar e estimular as empresas com impacto positivo na comunidade onde estão inseridas

Por fim, o pilar ambiental abarca os impactos no meio ambiente causados pelas organizações pelo uso devido ou indevido dos recursos naturais. Deste pilar fazem parte conceitos como a neutralidade carbónica, a regeneração de recursos, a adaptação e resiliência dos territórios, entre outros.

A sustentabilidade nas organizações, sejam elas públicas ou privadas, com ou sem fins lucrativos, deverá espelhar o equilíbrio entre os pilares económico, social e ambiental.

Os paradigmas no mundo corporativo são evolutivos, alterando significativamente a forma como as empresas e as organizações posicionam-se perante seus públicos e a sociedade em geral. Houve épocas em que a relação produção versus tempo representava a vantagem competitiva entre concorrentes. Surgiu, posteriormente, a necessidade de humanização das marcas, dando-se maior importância à imagem e à relação com os seus consumidores. Felizmente, ao longo dos últimos anos, o conceito de sustentabilidade tem vindo a assumir um papel cada vez mais preponderante nas empresas e organizações. Todos temos observado os seus esforços na promoção de ações e divulgação dessa poderosa palavra em diferentes formatos, incluindo relatórios divulgados publicamente. Com efeito, atualmente as organizações não podem apenas preocupar-se com a prestação de contas, tratando-se de uma forma muito redutora de espelhar o trabalho realizado. Assim, os relatórios de sustentabilidade têm vindo a substituir o tradicional relatório de contas. Para atender a pedidos de informação de diferentes stakeholders, muitas organizações e empresas têm divulgado anualmente os seus relatórios de sustentabilidade, como forma de demonstrar transparência em relação à responsabilidade social empresarial aos grupos de interesse com os quais se relacionam. A título de exemplo, o Corporate Register é um diretório que, desde 1992, compila relatórios de Responsabilidade Corporativa, de organizações de todo o tipo em todo o mundo.

os relatórios de sustentabilidade têm vindo a substituir o tradicional relatório de contas

A sustentabilidade precisa, portanto, de planeamento, acompanhamento e avaliação de resultados, uma vez que estes três pilares devem estar alinhados com os objetivos da organização, não podendo ser definidos com base em ações pontuais. Os consumidores e cidadãos estão cada vez mais exigentes, identificando rapidamente tentativas de greenwashing.

As metodologias de avaliação do desempenho das organizações são várias e são inúmeras as entidades envolvidas, de âmbito nacional e internacional. Serão incontáveis as investigações académicas sobre o tema. As Nações Unidas definiram em 2015 os cinco eixos de atuação para a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, cujo lema é “Ninguém pode ficar de fora!”: Paz, Pessoas, Planeta, Prosperidade e Parcerias. A Agenda 2030 estabelece 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), 169 metas, define os meios de implementação, as parcerias globais e enquadra o acompanhamento e revisão deste documento aprovado por unanimidade pelos países-membros das Nações Unidas. Está tudo inventado, falta apenas o maior e mais ambicioso objetivo: que todos e cada um de nós neste planeta se lembre em cada uma das suas ações, sejam elas mais mundanas ou abstratas, que os recursos são finitos e tudo funciona num sistema natural fechado. Não há mesmo outro caminho que não seja o da sustentabilidade, em cada uma das suas importantes vertentes.

Fernando Paulo

Vereador da Educação e da Coesão Social da Câmara Municipal do Porto



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